"Disse-lhe que se [a decisão era de] Cébrian e Polanco, isso vinha de [José] Sócrates e ele [Bernardo Bairrão] disse-me que, desta vez não era o Sócrates, era o Vitorino", acrescentou. "Só há pouco tempo fiquei a saber que o tinha sido o escritório do dr. António Vitorino que tinha tratado do negócio da Prisa", empresa espanhola que comprou a Media Capital. "Ele disse-me que foi o Vitorino [quem intercedeu junto da administração da Prisa, empresa detentora da Media Capital, para suspender o Jornal de Sexta, editado e apresentado pela jornalista]", reiterou Manuela Moura Guedes.A jornalista revelou ainda que a suspensão do Jornal nunca lhe foi comunicada pela administração da empresa, mas sim pelo então director de informação da estação de Queluz, João Maia Abreu.A jornalista está a ser ouvida na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República na sequência de notícias que dão conta de um alegado plano do Governo para controlar a comunicação social.
Direcção da TVI faz "gestão política" das notícias
A jornalista Manuela Moura Guedes disse hoje no Parlamento que a actual direcção de informação da TVI faz uma "gestão política" das notícias sobre o caso Freeport, tendo decidido espaçar a informação divulgada.Citando uma informação publicada pela revista Sábado, Manuela Moura Guedes referiu que o director de informação da estação, Júlio Magalhães, explicou ter decidido "divulgar as notícias [sobre o caso Freeport] de forma mais espaçada"."Eu entendo que isto é fazer uma gestão política das noticias", disse a jornalista que está a ser ouvida na comissão parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura."Há documentos sobre o Freeport que estão lá desde Setembro, que implicam o sr. primeiro-ministro e não são postos em antena", criticou a jornalista, adiantando que Júlio Magalhães "terá as suas razões"."Os jornalistas vão ter com a direcção de Informação mas eles desvalorizam esses documentos", referiu, lembrando que "nenhuma da informação que foi posta por no 'Jornal de Sexta' foi alguma vez desmentida ou posta judicialmente em causa".A administração da Media Capital mandou cancelar o Jornal de Sexta, coordenado e apresentado por Manuela Moura Guedes, em Setembro do ano passado.
Venda da TVI à Prisa tinha como imposição afastamento de Moura Guedes
Manuela Moura Guedes afirmou que o negócio da venda da media Capital por Miguel Pais do Amaral à espanhola Prisa , realizado em 2005, já pressupunha o afastamento da jornalista."Eu fui afastada em 2005", sublinhou a jornalista à comissão de Ética, Sociedade e Cultura. Esse afastamento "foi uma imposição" para que a compra da Media Capital pela Prisa pudesse acontecer, disse, acrescentando que o jornalista da TVI Carlos Enes jantou com dois deputados do PS e um responsável do gabinete do primeiro-ministro, no qual foi avisado que ele próprio e Manuela Moura Guedes seriam afastados.
Investigadores do caso Freeport também são pressionados
A jornalista da TVI afirmou que "também" os investigadores do caso Freeport são pressionados, e não apenas os jornalistas, dizendo conhecer o caso de uma inspectora que "recebe telefonemas dos assessores do primeiro-ministro"."Não são só as redacções dos jornais que recebem telefonemas, também os investigadores do caso Freeport foram [pressionados]. A inspectora Alice [Fernandes], de Setúbal, recebe telefonemas de assessores do primeiro-ministro", afirmou Manuela Moura Guedes, acrescentando que a inspectora "é muito permeável a esses telefonemas".A jornalista está a ser ouvida na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República na sequência de notícias que dão conta de um alegado plano do Governo para controlar a comunicação social.Segundo a jornalista, "dois elementos do Ministério Público puseram o lugar à disposição porque a investigação do Freeport não estava a ser feita convenientemente por causa da inspectora Alice". A Polícia Judiciária de Setúbal é que coordena a investigação ao caso Freeport, relacionado com o licenciamento de um centro comercial em Alcochete quando José Sócrates era ministro do Ambiente. Moura Guedes disse ainda que quando o Jornal de Sexta, pelo qual era responsável, foi suspenso, na primeira semana de Setembro de 2009, estava preparada uma peça sobre o caso Freeport que, apesar da suspensão do programa, "acabou por ir para o ar até por insistência de Santos Silva [na altura ministro dos Assuntos Parlamentares, responsável pela pasta da Comunicação Social]".
A jornalista acrescentou que na sexta feira em que a peça foi para o ar, o director da Polícia Judiciária, Almeida Rodrigues, referiu, em declarações à Lusa, uma carta anónima de que a peça inicialmente daria conta mas de que a TVI nunca falou."Na peça não tratávamos nunca de uma carta anónima. As declarações foram feitas à agência Lusa antes de a peça ter ido para o ar. Quem faz campanha contra quem?", questionou a jornalista.As declarações de Almeida Rodrigues à Lusa sobre uma carta anónima faziam, contudo, referência à revista Sábado, que no dia anterior, véspera do jornal da TVI, adiantava que a PJ de Setúbal mandara juntar ao processo Freeport uma carta anónima que implicava directamente o primo de José Sócrates.Moura Guedes referiu ainda declarações do jornalista da TVI Paulo Simão na altura em que o Jornal de Sexta foi suspenso."Ele disse - no dia em que o Jornal foi suspenso - que saiu da TVI porque o director geral lhe disse que deveria seguir nos jornais que editava a filosofia do Jornal de Sexta. Soube depois que ele foi levado."